sábado, 10 de setembro de 2011

línguas roxas

Estou naquela época do ano que penso como é que o mundo todo aguenta não viver aqui? O sol é constante. Os pássaros também e variados. E as frutas.. ah! as frutas!! Então, é caminhar pela manhã ou à tarde, e colher nesperas no pé, laranjas, tomates e as espontaneas framboesas.
Aí, vem a melhor parte de todas: as amoras! Cliquem na imagem! vale a pena! São seis pés carregados! Quando estou sob a amoreira de cima, eu me sinto criança de novo brincando de casinha. Sinto falta dos netos que não tenho. Imagino o que eu faria na infância , brincando agachada na sombra de  uma casa de rubis. Isso tudo sem contar o aroma fantástico das amoras misturadas com as flores de laranjeiras! Ah! o ar está perfumado que é uma coisa!  E começa a época das línguas roxas, das roupas com nódoas, da impossibiliade de colocar roupas no varal pois os passarinhos vão manchá-las.  A cor é denunciadora, assim como a torta que o assassino comeu e a ausência da língua roxa denunciou a fraude!

Tenho visto diariamente um episódio de Poirot. Ah! que delícia! Além dos textos da Agatha Christie serem ótimos, o visual da série é arrebatador! Infelizmente não há muitos closes dos chás, coisa que sempre me fascinou na autora, mas relances. No entanto, é uma aula de art deco! As locações, os objetos cênicos, as roupas.. ah! e as joias? Um programão para senhores e senhoras da minha idade que ficam tontos com as mudanças de cena rápidas das atuais séries. Poirot tem o nosso tempo.
E saio do pomar carregada de amoras, são dois litros diários que viram suco, gelatina, geleias, mancham linguas e dentes e roupas e botas , pois o chão é coalhado delas, e mais outras tantas gostosuras.

E belezuras e perfumes! Descubro que , para mim, não há aroma melhor do que o de flores de laranjeira! Subitamente entendo 
o simbolismo dessas belezinhas nos matrimônios!

Coloco-as em um jarrinho.Ah! a casa se perfuma!
Aí, vem a hora de misturar todos os bons odores: a torta!
Primeiro a massa: peguei uma xícara de farinha, uma gema, e, sem que a Neide saiba, duas colheres de margarina qualy light. Misturei. Tinha no fundo da lata uns 6 biscoitos Piraquê de maizena, amassei junto com a mão, a intenção era que houvesse umas partes crocantes na massa. Deu certo. Ainda, um tico de rapadura , muito pouco, um cm3. Amassei. Virou farofa, faltava molhar. Molhei com café quente que eu tinha acabado de fazer.. e alquimia aromática começou!!! A casa já estava cheirando a flor de laranjeiras, com o café subindo o nariz ficou feliz.
Dando o ponto certo pra fazer bola, a massa foi para geladeira.
Hora do recheio! Simples, uma colher de margarina, ainda na linha light, duas rasas de açúcar mascavo. E muitas amoras, quase os dois litros. E eu vou escrevendo, descrevendo isso e sinto salivar!
Ficando aquele líquido, caldo, provei. As amoras estavam tão doces, sim, pois só colho aquelas que caem no balde ao toque, sem arrancar, depois, claro , de meter a maior parte na boca a ponto do marido cair na gargalhada ao me ver tão monstra.  Então, espremi uma tampa de limão e coloquei mais amoras sem cozer.
Uma hora de geladeira, a massa foi esticada no pirex, moreninha do café! e 15 minutos no forno. Depois, o recheio colocado e.. ah! amendoas! E o aroma da casa!!!
Eu nunca tinha colocado amendoas na torta porém parece ser obrigatório. Torta de amoras com amendoas está em todos os livros que já falei aqui, de mulheres que encontram receitas e amores, como Minha casa na toscana ou, também, os da crítica de gastronomia americana cujo nome acabo de esquecer.
processei um punhado, torrei na frigideira e coloquei por cima de tudo e forno.

Comi quente.

Comi fria.
Comi gelada.
Entendi o mundo lisergico. O mundo das drogas fantásticas! Eram tantas camadas de sabores que fui comendo com os olhos cheios de lágrimas, juro. Acido, doce, café, amendoas, torrefação, vida! 

É só um pouco de cada vez, não muito, porque é forte demais, forte para os sentidos. Não é pra se comer batendo papo, é coisa de concentração.  Aí, a gente entende porque o povo do outro hemisfério gosta tanto de chá, pois, pra acompanhar, agathacristiamente, nada como uma tisana, o chá de Poirot! No caso, foi com flor de laranjeira, uma só, de enfeite, com capim limão.
E o dia termina..

6 comentários:

Anônimo disse...

Uiiiiiii e covardia , lingua roxa que deliciaaaa nao sou chegada em doces mas , fala serio amoras , nesperas, etc etc e tal e tudo de bom e muito mais .... quem me dera morar num paraiso desse beijos Denise ( a anonima )

Norma disse...

Mas que delicia hein...Um verdadeiro festival de cores sabores e aromas...vc é realmente previlegiada por morar num paraiso assim..Salivei com a torta de amoras e senti todos o aromas que vc descreveu...viajei rsrsrs..muito bom !!! Um forte abraço !

Gina disse...

Esse foi o texto mais "aromático" que você publicou!!! Fiquei sentindo o perfume das flores de laranjeira, do café, das amoras, até das amêndoas moídas, que para mim também dão um toque muito especial às tortas. Acabei de fazer uma, cuja massa leva amêndoas e recheio de peras, coisa de louco!
Já tive muitos pés de amora no sítio e curtia colhê-las com a bacia na mão. É bem isso mesmo que você descreve, para cada duas que iam pra bacia, uma direto pra boca!
Saboreei seu texto, suas fotos, sua torta, notei os violões (claro!) e passeei com você por esse lugar tão inspirador.
Nota: Estive com a Julia Child (ôps, Neide) anteontem, passeamos pelo Jardim Botânico sentindo um aroma delicioso no ar, que não sabíamos de onde vinha...
Como diria Rita Lee, agora só falta você... (o encontro das Julies está se aproximando!)
Bjs.

ArRiVer disse...

E dizem que o paraíso não existe hein?
Estamos com saudades de você lá no Blog!
Viemos lembrar da promoção do Quatro Minutos, conta pros teus amigos aí!
Abraços!

angela disse...

Tenho de comprar mais 4 minutos para aproveitar tudo! Meninas, todas vocês estão previamente convidadas. É sério. De vez em quando surgem novas amigas virtuais que viram reais por aqui. É só vir. Tem casa de hóspede com cozinha, tudo simples, cimento e brasilit mas tudo arrumadinho e confortável e privado.

Renata Boechat disse...

O melhor de tudo é o jeito que voce conta isso tudo pra gente,adoro! E as fotos? Me fazem querer estar aí!

Minha amiga, respondendo sua pergunta sobre agua de rosas: compro em empórios que vendem coisas da cozinha árabe, tem sempre dessas águas de rosas, ou de flor de laranja. agora, quanto a fazer em casa, sinceramente não saberia dizer, pois de fato desconheço.

Abraço,
Renata